Quarta-feira, Setembro 3

le jour triste



as palavras mais do que as intenções. muito mais do que a vontade. as palavras como espadas num duelo entre mãos amigas, daquelas que se conhecem de olhos vendados.
uma porta semi-aberta, ao lado uma janela para o vazio. passar para o outro lado ou ficar deste. à espera.

à espera que saibas, que saibam, que sintam, voltem e não me deixem. não me deixem aqui no meio, mesmo no meio de tudo, mesmo aqui ao vosso lado, eu que vos conheço tão bem, eu que vos quero tanto e tão demasiado bem.

hoje é um dia triste.

Segunda-feira, Julho 28

é como se desde o início toda a história tivesse escrita a lápis de carvão, que não só não fica em fotocópias, como agora vai sendo lentamente apagada com uma borracha daquelas verdes, pelikan. sem esforços. simplesmente vai desaparecendo do papel.

Sexta-feira, Julho 4





fecha os olhos e aprecia.

Quarta-feira, Maio 14

diálogos de trânsito


- "o meu problema foi ter vivido sempre com os homens errados."
- "como? não estou a perceber."
- "exactamente isso. o meu problema foi ter vivido sempre com os homens errados. viver mais de vinte anos diariamente com homens domesticamente bem mais exemplares que eu fez de mim uma mulher de espectativas e padrões demasiado altos. um exagero."
- "já estou a ver onde queres chegar"
- "o meu pai e o meu irmão são uma excepção, e eu uma nulidade feminina. procuro um princípe, e claro que isso não existe. até porque eu nunca serei princesa. o meu problema foi ter vivido sempre com os homens errados."
- "... "

Quarta-feira, Abril 16

rewind

da última vez que te vi era Verão. lembro-me porque o calor que me escorria nas costas era feito de mar e areia.
olhaste para mim e balbuciaste qualquer coisa ao meu ouvido - a música estava tão alta. fizeste aquele olhar, aquele que me toma com força pelos braços e me leva para longe. longe onde não me lembro. foi há muito tempo, há demasiado tempo. há muitos minutos atrás, lá onde já não sei. lá onde já não existe. onde já não é.
pergunto-me o que terá sido feito desse Verão, desse mar, dessa areia. E sobretudo desse olhar.

Nunca mais te vi. se te visse tinha tantas coisas para te contar.

onde é o botão de rewind?

Quarta-feira, Março 19

19 de março de 2006



certa noite em Lisboa, testemunhava a chuva miudinha o riso nervoso de dois pares de mãos atabalhoadas a subir ruas e a desvendar segredos. frio na barriga e um beijo com fado. o primeiro. poemas e canções num certo bar de alfama. seis da manhã, a aurora, sete da manhã.

foi há dois bonitos anos, meu pequeno.

Sexta-feira, Março 14

para sobreviver.




toque violento. agarras-me à bruta com dedos de pedra fria e feres-me os pés como agulhas cravadas na sola, no chão preto e profundo. único chão onde consigo ser-me sem medos. fechar os olhos e ser a outra. a outra em mim, a outra de mim, eu.
louca, louca, louca, deixas-me louca, fazes de mim o que queres. sou qualquer coisa entre a rua e a grandeza das tuas paredes, as cadeiras de veludo encarnado e as luzes quentes em cima do rosto. só aí eu sou. so aí eu sei.

agarra-me outra vez.

 
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